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BallasCast – Episódio 04 – École Internationale de Théâtre Jacques Lecoq

Episódio 4 - BallasCast

 

TRANSCRIÇÃO - EPISÓDIO 4


Senhoras e senhores, ladies and gentlemas, madames at messieurs, bombeiros e bombeiras, está começando mais um… BALLASCAST!


Música!…


Bem vindo novamente! É um prazer inenarrável, inexorável, imprestável, indignável, intra conceptivo de dentro do meu coração mesmo, saber que você está me ouvindo aqui, novamente.


No grupo BallasCast você pode comentar, pedir coisas, tem sorteio de ingressos. É muito legal, é muito divertido. Então entra lá, se você quiser. Se você não quiser também, não tem nenhum problema. O que importa é você ouvir meu caro ouvinte. Muito bem, muito bem, muito bem, pra você que não ouviu os três episódios anteriores eu estava contando um pouco da minha história, estava no exato momento onde eu decidi largar tudo que tinha em Nova Iorque e me mandar pra FRANÇA. Então vamos ao quarto episódio.


 


ÉCOLE INTERNATIONALE DE THÉÂTRE JACQUES LECOQ.


(Falando com bico, porque é francês)


Comprei uma passagem Nova Iorque-Paris, e fiquei dez dias de espera pensando como é que eu faria pra sobreviver em Paris. A escola era muito cara, custava 36 mil francos — o Euro não existia na época, mas era muito dinheiro. E eu tinha exatamente esse dinheiro e mais nada, quer dizer, eu podia pagar a escola, mas eu não tinha dinheiro nem pra comprar o lanche, muito menos pra alugar um apartamento. Eu então telefonei pra uns tios que moravam há uma hora de Paris, e gentilmente perguntei se eu poderia ficar um tempinho ali na casa deles, e eles toparam.


Então já tinha um lugar pra desembarcar em Paris. O resto eu ia ter que ver lá na raça e na coragem. Chegou o grande dia, desembarquei na cidade das luzes. Um misto de alegria e um misto de pânico, porque realmente eu tava com muito medo de encarar uma escola nova em francês e sem dinheiro. Quando chegou o primeiro dia de escola eu lembro de ver todos os alunos juntos esperando o M. Lecoq, que era uma entidade, por que era um cara muito importante, muito incrível. Então eu olhava pras pessoas e ficava muito maravilhado. Uma escola internacional, então tinha gente da Inglaterra, tinha gente da Rússia, tinha gente de Israel, gente da Espanha, gente da Itália, gente do Congo, tinha gente do mundo inteiro. E aí chegou o M. Lecoq, (UAUU) — deu as boas vindas pra todos e lá fomos nós pro primeiro dia de aula. Logo na primeira aula eu estranhei uma coisa, que mais pra frente eu fui entender que era a seguinte, todo mundo na escola tava de preto, calça preta, camisa preta e só eu, o brazuca desavisado, estava de calça azul e camiseta rosa, para espanto e para olhar incrédulo das pessoas. Eu achei aquilo normal e realmente eu não tinha muito noção, eu não tinha feito teatro, eu não sabia que nas escolas de teatro as pessoas se vestiam de preto, então eu tava achando mais que o pessoal que era careta mesmo e não que eu era o mané da escola. Logo entendi que tinha um código ali a ser respeitado e comprei uma camisa preta no dia seguinte. (música)


E aí você me pergunta: “MAS ERA AULA DE QUÊ? QUE QUE TINHA NESSA ESCOLA?”.


A escola em linhas gerais, ela funcionava da seguinte maneira: O primeiro assunto que a gente estudava era o silêncio. Então as primeiras improvisações eram em silêncio, pra gente conhecer e perceber como é que o corpo trabalha em silêncio. A gente trabalhava a máscara neutra, que é uma mascara branca que cobre o seu rosto e assim possibilita da gente ver o corpo e saber que o corpo, ele fala, com o corpo a gente consegue comunicar, a gente não precisa da voz. Outro assunto que a gente trabalhou, foram os elementos, água, terra, fogo, ar… Que que é isso? Na primeira aula, por exemplo, a gente trabalhava o ar, como é que se movimenta o ar, faz o ar com o seu corpo, ou melhor, seja o ar. Depois a gente trabalhava isso dentro de uma cena, por exemplo, que personagem seria um personagem ar? Dois ladrões invadindo um museu pra roubar um quadro. Eles têm que se movimentar como o ar, uma leveza, com uma delicadeza, então isso serve pra construção de personagem. E depois a gente tinha que montar uma cena em uma, qual, estivessem misturados os elementos. Um personagem que, por exemplo, que seria o personagem fogo. Um personagem que: “Ah, porra, tô muito puto! Caramba, não acredito… sério?”. Personagem que é estressado é um personagem que tem o elemento fogo por trás.


Outro tema trabalhado eram os animais, isso era muito legal. Por exemplo, numa das aulas eles falaram: “Vocês têm que ir no zoológico observar os animais”. Então imagina você, as oito da manhã, estudando mesmo, ter que ir no zoológico e ver como é que se movimento o macaco, como é que se movimenta o tigre, como é que se movimenta o cavalo… O cavalo não tinha no zoológico… Mas enfim. Como é que se movimenta cada um dos bichos, a cobra… Como é que é o movimento dela? Pra quê? Pra depois você transpor isso para o seu personagem. Então por exemplo, um personagem que é um dono de um escritório que é muito gordo e velho, quem sabe eu vou pegar como inspiração física, um elefante. Já pensou nisso? Então é muito incrível… (música). E o clown ele entrou na escola, porque o Jacques Lecoq, ele ficou muito intrigado de como é que as pessoas riem, o que que faz as pessoas rirem. Então ele começou a investigar isso, e uma das coisas que ele gostava muito, que ele era fã, era do palhaço do circo. Ele começou a trazer essa linguagem do palhaço e pesquisar na escola dele. Primeiro exercício que ele fez foi um exercício clássico onde ele colocou todas as pessoas da classe num semi circulo e uma a uma tinha que entrar e fazer as pessoas rirem.


FAÇA AS PESSOAS RIREM… Esse era o enunciado do exercício. E aí o que ele percebeu? Que as pessoas iam entrando uma a uma e tentavam fazer coisas, tentavam fazer caretas, tentando fazer várias coisas e começou a ficar um clima de, tenso, um clima meio assim estranho, ninguém ria. Tensão total. E o que ele começou a perceber é que assim, assim que a pessoa tentava fazer uma coisa que não dava certo e ai ela… Ahn… Mostrava que fracassava aí as pessoas riam. A pessoa tentava fazer um negócio e não dava certo, aí as pessoas riam. Ele começou a sacar que o palhaço funciona muito no fracasso, no que ele chama no bid, ou no flop, como eles usam no inglês. Então ele começou a trazer essa linguagem que era do palhaço pro teatro. Qual que é a diferença do palhaço do circo, pro palhaço do teatro do clown? È que no circo, o palhaço ele usava essa linguagem num lugar pra mil, duas mil pessoas, então tudo que ele fazia era muito grande. Então se você for ver a maquiagem dele era grande né? Olhos largos, boca grande, roupas largas, ele falava tudo alto. Se ele chora sai em jatos de água do olho, se ele tá triste sobe o colarinho, se ele peida sai aquela bufa de ar. Quando o palhaço foi trazido por ele ao teatro, começou a ter um outro tipo de trabalho. Por quê? Porque no teatro já é menor o espaço. Já tem uma acústica boa, então ele pode ser mais sutil, mais olho no olho, fazer as coisas menores com mais sutileza e mais delicadeza. Então como é que funcionava a escola dele, a escola dele falava que era uma grande viagem que começava no silêncio e aí passava por todas essas matérias que eu falei, passava pelos elementos, pelos animais, pelas matérias, pela poseia, pelos quadros. E no final a ultima coisa da escola era o palhaço. E por que era a ultima coisa? Por que era coisa de encerramento de fechamento? POR QUE O PALHAÇO É QUANDO O ATOR ENCONTRA ELE MESMO. Por que a verdade o que palhaço é o que nós somos. O PALHAÇO É VOCÊ. TODOS NÓS SOMOS PALHAÇOS. Então a busca dele é essa. ENCONTRE O SEU PRÓPRIO PALHAÇO. E uma das coisas que ele trabalha era chamado de mimodynamic, é a mímica em dinâmica, diferente daquela pantomima que é aquela do Marcel Marceau, onde a gente vê o cara fazendo na parede, ou ele fazendo as coisas, ele vai SER as coisas. Então quando eu faço o animal, eu não faço o animal, eu não imito o animal, eu SOU o animal (por isso que a gente ia ao zoológico). Se eu faço uma matéria eu não faço a matéria. EU SOU A MATÉRIA. E POR ÚLTIMO, EU NÃO FAÇO O PALHAÇO, EU SOU O PALHAÇO.  Eu fazia o curso. Depois do curso, eu achei um trabalho de baby city, é, eu cuidava de um molequinho chamado Luka, que tinha quatro anos de idade, então eu buscava o moleque na escola, levava o moleque pra casa dele, ficava brincando com o moleque, ajudava o moleque a trocar roupa, fazer a lição de casa. Aí chegava os pais e eu tava liberado. Outra ideia também que eu tive quando cheguei lá, foi a seguinte. Em Nova Iorque eu tava fazendo festinha de criança, tava funcionando, pensei: “Poxa, vou fazer a mesma coisa aqui”.


Então procurei na lista telefônica, sim na época tinha um negócio chamado a lista telefônica, a internet era muito no começo, e eu procurei lugares que faziam festinhas de aniversário e fui me oferecer a eles. Falei que tinha uma experiência, que eu trabalhei no Brasil, em Nova Iorque, entendeu, eu era um cara rodado, pouco rodado, mais rodado. E aí consegui que uma agência me contratasse. E aí comecei a fazer festinhas de crianças em francês, afinal eu tinha estudado no Best Clown, eu sabia fazer esculturas de balões, eu sabia fazer maquiagens toscas, mas eu sabia, eu sabia fazer malabares com três bolinhas. É… Ridículo, mas eu sabia. E aí eu comecei a poder me virar e comecei a ter um pouquinho de dinheiro, pra comer minha baguete com queijo e meu pão e chocolat que era meu almoço diário durante todo esse ano na França. Foi um ano incrível, por que eu pude conviver com atores do mundo inteiro, eu… Quatro meses depois eu passei a morar com meu amigo espanhol, meus amigos eram suíços, italianos, belgas, então você aprende a cultura dessas pessoas e assim foi o meu incrível ano.


Assim que eu acabei a escola, passou um mês, eu recebo uma ligação de um amigo falando: “Marcio, M.Lecoq décédé”. Eu falei: “O quê?”. “M. Lecoq décédé!”. Eu falei: “Sim, M. Lecoq, Que é que tem?”. “Décédé”. “Que que tem décédé?”. Era uma palavra que eu não conhecia. “ Il mort, il mort!”. ELE MORREU. MONSIEUR LECOQ TINHA MORRIDO.


Nesse exato momento eu lembrei do Avner Eisenberg, aquele palhaço que eu tinha ido na casa dele, na ilha, há um ano atrás e que me falou: “IF YOU WANT STUDY CLOUD, YOU HAVE TO GO TO LECOQ SCHOOL. AND HE’S OLD, HE’S NOT GONNA TEACHER FOA A LONG TIME, ELE TÁ VELHO, ELE NÃO VAI DAR AULA POR MUITO TEMPO”. Eu falei: “UAU… QUE LOUCO, SE EU NÃO TIVESSE VINDO NESSE ANO, EU NÃO TERIA ESTUDADO COM ELE”. Foi realmente muito louco, foi muito impactante essa notícia. Eu até não sei se ele morreu pela minha atuação, por que eu fui muito ruim né, depois eu fiquei pensando: “Nossa será que fui eu que matei o M. Lecoq?”. Mas enfim, esses são os fatos, assim é a vida… Ele se foi e eu fiquei… E EU ERA O ÚLTIMO CLOWN DO LECOQ.


CÉST FINI LE EPISODE.    


Muito bem, muito bem, muito bem, chegamos ao final de mais um episódio (AAAAAHHHHH), MAS SEGUNDA FEIRA QUE VEM TEM MAIS! (Eeeeehhhhhhh), então deixa seu comentário o que você achou, suas sugestões, quem você quer ver ser entrevistado e improvisar aqui comigo no grupo BallasCast, ou na minha página do Facebook, ou onde você quiser.


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Então vamos agora ao momento merchan


“Oh, Márcio… Vem cá! Eu queria muita assistir vocês, eu vô tá uns dias ai em São Paulo, como é que é o ixxquema ai hein?”.


Todas as quartas feiras noite de improviso no Comedians.


“Oh Márcio? Eu queria ser seu aluno sabe? Muito. Da prá estudar improviso, essas coisas de improviso improvisa?”.


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MUITO OBRIGADO PELA SUA PACIÊNCIA.


THANK YOU


 


 

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