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BallasCast – Episódio 09 – O Espetáculo na guerra do Kosovo – Parte 2

 

Clique aqui para ler a transcrição do episódio.


Senhoras e senhores, laaaadies and gentleeeeeeemaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaannnnns, mesdames et messieurs, designers e designaaars… Está começando mais um…BALLASCAST!


MÚSICA.


    Olá, olá, olá!


É um prazer estar aqui novamente!


Que alegria, agrado, glória, animação, contento, deleitamento, euforia, jubilação, deleitação, bom humor, deleito, jovialidade, júbilo, heleidise, prazer, gosto, entusiasmo, enlevudeifasieu contentamento, comprazimento, felicidade, dicionário de sinônimos que você está aqui comigo no BallasCast.


Então vamos agora, a mais um episódio…


Of the history


Of my life!


 


O ESPETÁCULO NA GUERRA DO KOSOVO PARTE II.


 


No episódio anterior eu tava contando da expedição que fiz com os Palhaços Sem Fronteiras pros campos de refugiados do Kosovo.


Assim que a gente terminou o primeiro campo de refugiados, partimos em direção ao segundo campo que chamava-se Spitali, na cidade de Tures.


Esse era um campo bem maior e lá estavam quatro mil e quinhentas pessoas e o procedimento era sempre o mesmo.


A gente chegava já nesse desembarque as pessoas acabavam sabendo da nossa chegada, porque não era um espetáculo programado né, não tem uma central de avisos, não tem nada.


As coisas acontecem lá no aqui agora.


Então a gente foi montando, as pessoas foram chegando, chegando, chegando e depois de uma hora de montagem o nosso espetáculo começava.


No fim, desse segundo espetáculo, algumas pessoas do Care International, que é a ONG que ficava cuidando deles lá, vieram contar pra gente que as mulheres tinham ficado muito emocionadas.


E a gente não entendeu muito o porquê especificamente as mulheres.


Eles contaram pra gente que lá era uma sociedade muito machista, então quando eles viram a trapezista mulher lá em cima, sendo a protagonista do espetáculo, pra elas tinha sido uma coisa muito emocionante, muito bacana.


Elas vieram falar com a trapezista, então foi um momento muito bacana, pra gente saber que, de alguma maneira, a gente trazia uma coisa, que nem a gente sabia o que era.


Como eu contei no episódio anterior, quando acabava o espetáculo era o momento que eles podiam fazer/dar alguma coisa pra gente em troca, então nesse campo, eles convidaram a gente pras tendas deles.


Então a gente foi lá, entrou nas tendas e lá, eles ofereceram chás e algumas comidinhas que eram típicas lá da fronteira da Albânia.


E assim terminou o nosso primeiro dia, a gente voltou pra casa dos Médecins du Monde e eu antes da janta, eu já capotei porque tinha sido muita emoção prum dia só.


E às oito da manhã, a gente tava novamente dentro da van, pra fazer mais dois campos de refugiados que era a nossa rotina diária.


Música.


 


No segundo dia, a gente foi pro campo chamado Combinatextil e um outro chamado Rafusashi.


Como o público todo falava albanês, a gente fez um espetáculo que praticamente não tinha texto, não tinha falas, tinham algumas poucas coisas que a gente falava em francês mesmo e que eles entendiam, por exemplo, uma hora eu falava: “Magia, magia, magiiiia”.


E eu fazia eles repetirem: “Magia, magia, magiiiiiiia”.


Então eles iam entendendo tudo.


Só que aos poucos eu ia colocando pequenas palavras em albanês, então por exemplo o SIM, eles falam PO.


O NÃO eles falam NUK.


E eu comecei a notar que cada palavra que eu falava, eles achavam aquilo muito engraçado.


Então a medida que os shows foram passando eu fui aprendendo cada vez mais coisas e no final da expedição, eu tinha todo o meu texto em albanês.


E Eles achavam muito engraçado. Eu perguntava:


ÇFARË ËSHTË EMRI JUAJ? (Que quer dizer “como é seu nome?”).


Eles riam. Não tem graça nenhuma, mas lá pra eles era muito engraçado.


Eu chamava o cara do público e eu falava:


JU DONI TË PROVONI? (Que quer dizer “Você quer tentar?”)


E ele ria. Ele ria. Ele ria.


Então eu comecei a entender que pra quem tá lá, pra quem tá em outro lugar, quando você entra no universo dele, quando você empatia, quando você se junta e se conecta com ele…


Coisas incríveis acontecem.


No penúltimo dia da expedição, foram no total, quinze dias com dois campos por dia, a gente foi a pedido da Croix Rouge, da Cruz Vermelha fazer um espetáculo em Elbasan.


Era um espetáculo no meio da praça principal.


Chegando lá a gente viu uma movimentação muito grande, tinha carros de polícia, tinham batedores, tinha muita bagunça, a gente ficou até com medo que fosse alguma coisa da guerra, que aconteceu alguma coisa.


Eles deixaram a gente meio de sobreaviso que talvez a gente tinha que ir embora, talvez a gente tinha que dar meia volta.


E aos poucos a gente foi chegando, “que quê tá acontecendo?” e “alguma coisa, alguma coisa”.


E a gente percebeu que aquilo tudo tava acontecendo por conta do nosso espetáculo lá.


Ele foi um espetáculo que foi anunciado na rádio, na televisão. Então as pessoas de todos os lugares vieram pra assistir a gente.


Eles tiveram que uma hora bloquear por que tinham três mil pessoas e poderia dar algum problema meio grave, meio grande.


Então de repente eu tava lá na frente de três mil pessoas pra fazer um show e esse foi um dos melhores shows de todos que a gente fez.


E aconteceu uma coisa curiosa, que num dos números, eu chamava uma pessoa do público pra dar uma tortada na minha cara.


E normalmente eu chamava alguém, um jovem, um adolescente ou uma criança.


E nesse a gente chamou um velhinho, um senhorzinho.


Então ele veio. Tal, tal, tal.


A gente fazia a brincadeira de que eu era o homem mais forte do mundo, então o Antoni falava:


– Você vai ter que jogar essa torta nele, você vai ver que ele é o homem mais forte do mundo!


Aí eles faziam contagem regressiva… Três… Dois… Um… E aí no “um” eu falava:


– Não, não, tô com medo!


E ele falava:


-Vai, vai, vai. Você é o homem mais forte do mundo.


E de novo contagem regressiva… Três… Dois… Um…  E eu falava:


– Não, não, por favor, eu não quero! Eu não quero!


– Não! Você é o homem mais forte do mundo.


E daí na última vez quando fazia… Três… Dois… Um… E “PAÁ”


Ele me dava a tortada (esse era um dos números).


E nesse dia esse senhorzinho se empolgou e me deu uma tortada de uma tamanha força que eu acabei indo ao chão, eu fui a nocaute.


Eu acho que eu dei uma desmaiada de uns segundos, e de repente eu tava lá no chão, no meio da Albânia, na fronteira do Kosovo, não sabendo se eu tinha quebrado meu nariz, deitado no chão e todo mundo rindo e todo mundo achando incrível.


Só ouvia o barulho das vozes ali.


E eu pensava: “Meu Deus, eu quebrei o meu nariz”.


E meu parceiro tava achando estranho por que eu tava demorando muito e ele falava:


Marcio? Marcio? Marcio?


Aí eu falei:


– Eu acho que eu quebrei o nariz!


Marcio? Vem cá, Marcio!


Só que não podia sair no meio do espetáculo pra ir lá com os médicos e tudo.


Enfim, eu levantei, limpei, fingi dignidade, todo mundo me aplaudiu e não tinha acontecido nada de muito grave, apenas um belo dum soco na minha napa.


        Música.


 


Finalmente chegamos no último dia da expedição, último dia no campo chamado Combinat Textil, que era uma antiga fábrica de têxtil que tava desativada e a Care International, que é uma organização, cuidava desse campo e convidou a gente pra apresentar por lá.


Chegamos lá, fizemos a montagem, o espetáculo começou e quinze minutos apenas tinham passado e começou a chover…


Começou a chover um pouquinho…


A gente fez mais um pouco…


Só que chegou uma hora começou a chover muito, então a gente parou o espetáculo pra eles poderem voltar pras tendas deles…


Só que… O público não saiu de lá, o público ficou no lugar.


E a gente pediu pros tradutores avisarem:


– Olha, não vai dar pra gente fazer o espetáculo, que tá chovendo. Voltem né?… (eles tavam começando a se molhar de verdade).


Só que as pessoas não saiam de lá.


Então a Organização começou a conversar com a gente, começou a conversar com eles e tal, tal, tal e falaram:


– Não, vocês topam continuar?  Eles não querem sair!


A gente falou:


– CLARO! A GENTE PODE FAZER NA CHUVA!


Então a gente fez o espetáculo inteiro na chuva e o público terminou molhado, os artistas terminaram molhados.


E assim encerrava a nossa expedição pros campos de refugiados do Kosovo.


E assim terminava uma das experiências MAIS IMPRESSIONANTES que eu tive na minha vida né?


EU NUNCA ACHEI QUE EU FOSSE TÁ NUM LUGAR EM GUERRA MESMO, EM GUERRA DE VERDADE.


Mais do que um filme eu tava no meio de uma dura, crua realidade.


MAIS DO QUE ARTÍSTICAMENTE, FOI HUMANAMENTE UMA EXPERIÊNCIA MUITO INCRÍVEL.


E de perceber como o palhaço num lugar desse, ele consegue abstrair esse universo e transformar esse mundo que está ao redor dele, e trazer um pouco de cor prum lugar que realmente estão cinzas de verdade.


Final da história.


Ou como diria em albanês…


FUNDI I TREGIMIT


Muito bem, muito bem, muito bem!


Chegamos ao final de mais um episódio (AAAAAAAAAAAAHHHHHHHH) mas segunda feira que vem tem mais (EEEEEEEHHHHHH).


Se você quiser dar sua opinião, dar seu feedback, você pode escrever na minha página no Face, você pode entrar no BallasCast, no grupo que tem lá no Face, aliás…


Agradecendo sugestões…


Natália Dantos, Alexandre Takanami, Diego Maldonado, Camila Toni, Samira Trindade Jonas e Caio Kuelar (cujo nome é bem dubio hein?)…


Caio Kuelar


Parabéns Caio por esse nome e por conviver com ele.


Chegamos agora ao momento merchand…


 


MARCIO. EU ACOMPANHO SEUS PODCASTS, ESTOU ACHANDO MUITO LEGAL ESSA SUA MUDANÇA.


         EU TÔ TRABALHANDO NUMA EMPRESA MAS EU NÃO TÔ NADA FELIZ LÁ DENTRO, O QUE VOCÊ ME ACONSELHA HEIN?


 


Ééééééé simples. Indique pro RH minha palestra de improviso e criatividade.


Assim você se diverte às custas dele.


É só escrever pro… www.marcioballas.com.br.


 


Muito obrigado pela sua paciência.


Pela sua audiência.


Pela sua resiliência (palavra que as empresas usam muito e eu não entendi até hoje, exatamente, o que quer dizer).


 


Espero você na semana que vem…


Muito obrigado…


Thank You


Merci Beacoup.


Ou como diziam os albaneses…


          JU FALEMINDERIT SHUMË !


          Thank you Google Translator !


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