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BallasCast – Episódio 98 – Claudio Carneiro (Cirque du Soleil – Parte 3)

EPISÓDIO 98 - CLAUDIO CARNEIRO (CIRQUE DU SOLEIL - PARTE 3.


Senhoras e senhores, laaaadies and geeeentlemans, madames et messieurs, equilibristas e equilibristos, está comçando mais um…


BALLAASCAAAST!


MÚÚÚSICAAA!


Olá, olá, olá, seja CaixadePandoramente bem-vindo ao BallasCast. Para você que nunca ouviu o BallasCast, está no episódio errado, porque esta é a terceira parte de uma entrevista, não faz nenhum sentido começar daí, então volta lá para trás…


E você que acompanha a gente semanalmente, welcome again-again-and-again


E a gente vai continuar a nossa entrevista com ele, que é um monte de coisas… Porque tem gente que fala que ele é palhaço, tem gente que fala que ele é mímico, tem gente que fala que ele é bufão, tem gente que fala que ele é performer, e ele É esse monte de coisas!


Então vamos ouvir mais da entrevista com ele, CLAUDIO CARNEIRO!!!


PALMAS!!!


(Música)


ENTREVISTA COM CLAUDIO CARNEIRO (PARTE 3)


(Música)


– Me fala uma coisa, que você me contou, e eu até falo disso nos… Eu conto um pouco de você nas minhas palestras, você quando foi fazer o Soleil, o Varekai, eles te deram dois números para fazer, que eram números deles?


– É! Não, não é que eles me deram, a gente que teve que criar, não estavam prontos! Eles tinham   já o esboço, mas a gente tinha que criar. Era um homem alto, magro, e uma mulher gorda, baixinha, loira… Então tinha os tipos, né? E a gente não sabia… “Ah, talvez um número de mágica. Talvez um número de desfile”, e fazendo coisas, a ideia dos novos, enfim, a ideia dos palhaços, nós éramos acho, nós éramos lanterninhas, realmente humanos, por isso que não tinha maquiagem no Cirque du Soleil, era muito naturalista…


– Fizeram dois palhaços, que eram dois lanterninhas na história, só para…


– A gente começava na verdade, como lanterninhas, isso é muito legal… Na animação, as pessoas realmente acreditavam que a gente era lanterninha…


– Ah, que legal…


– E aí a gente começava a destruir, fazia eles andar muito, jogava pipocas neles, tinha que causar um estranhamento…


– Aí vocês, até a estreia, um pouquinho antes da estreia, vocês tinham fechado, criado dois números?


– Um número e meio, é… Um número grande, estruturado, um número de mágica! E outros poucos, outras passagens, que a gente fala no circo… E aí eu estava frustrada…


– Por quê?


– Porque um mês atrás, eu estava em Paris, fazendo vários números, eu… Tinha um teatro que eu fazia meus shows, era uma hora só de número meu, sabe? Em São Paulo, aí cheguei aqui e “Caramba, a gente criou um número, que eu ainda não sou”, depois eu passei a gostar, depois eu… Hoje eu até vejo, mas um clássico número de mágica… Não gostava, achava ruim, assim… E…


– E comparado com os seus, você fala “Puta, meu números é melhor que esse”.


– Ah, me divertia os números, sabe? Você faz o que te dá tesão e eu faço o que me dá tesão…


– E aí o que que você fez?


– Aí eu peguei, no dia da avant-première, um dia antes da estreia mundial…


– Nossa…


– Na avant-première vieram 500 pessoas, amigos do Cirque, veio o‎ Guy Laliberté, veio os donos…


– O Guy Laliberté, para quem está ouvindo aqui, é o dono, que vendeu a pouco tempo, mas é o dono, é o criador, é O Cirque du Soleil, e aí estava antes da première


– Eu de roupão, na cozinha do circo, em Montreal, e aí o produtor que a gente ficou muito amigo, o Andrew… Acho que é Andrew Watson, e ele sentou do meu lado para comer, e eu olhei muito sério para ele, então em duas horas a gente ia ter a avant-première, o exercício para a grande première mundial do Varekai…


– Uma estreia!


– Aí eu falei para ele “Andrew, é o seguinte… Eu gosto muito de fazer o que eu faço, eu sempre gostei, é um grande sonho, um sonho de adolescência entrar no Cirque du Soleil, bom… Pós adolescência mas, é um sonho! Só que pô, eu gosto muito dos meus números, e eu estou aqui há um mês tentando botar os meus números, e eu não consigo, por alguma razão, e é o seguinte, se até amanha… Hoje eu vou fazer a avant-première porque é daqui há duas horas, mas se até amanha eu não tiver um número meu… Um número meu das antigas, meu, uma criação minha, solo, sozinho, no Cirque du Soleil, no Varekai… Eu vou embora, eu vou sair andando… E eu sei que por contrato vocês vão me processar, eu nem tenho grana para pagar, perder um processo, mas tudo bem, também não vão me encontrar muito, porque eu moro na rua em Paris…”


– Porque nessa epoca, puxando um parênteses… Você, pelo que a gente contou lá atrás, no outro episódio, você um mês antes estava em Paris, fazendo show na rua, estava apaixonado, estava tudo bem e os caras te ligaram e falaram “A gente precisa de você amanhã”, então você acabou indo para lá, e passou, entrou de uma hora no circo, né?


– Sei…


– E acabou sendo uma figura importante dentro do espetáculo, então você tinha uma certa força dentro do espetáculo, imagino, por isso também…


– Sim, assim, não sei… Era tudo meio que um blefe, um jogo é… Enfim…


– E aí? O que que ele falou?


– Aí ele entendeu com respeito, ele entendeu que eu estava realmente frustrado, puto, aí ele falou “Tá bom Claudio, me dá um minuto”, ele pegou o telefone na minha frente mesmo, falou com alguém, e ele falou “Claudio, daqui há uma hora você tem 30 minutos no palco para fazer o que você quiser, para apresentar um número…”


– Uau…


– “E aí a gente vê, e aí a gente decide…”


– Ah, você ia mostrar, pra ele…


– Aí ele falou “O que que você quer fazer?”, aí eu chamei o nosso produtor, desse povo que ajudava, a Lucie, que é uma querida, eu falei “Eu preciso que alguém vá correndo ao centro de Montreal achar um CD da Nina Simone, cantando Ne me quitte pas.”


– Nossa!


– Porque o Emílio tinha me dado essa fitinha, uma fita cassete de presente, no ultimo dia dele em Paris


– Nossa…


– Ele me acordou com esse presente “Oh Claudio, é para você”, e tinha essa música, que é, sabe? É linda! Aí eu falei “Alguém precisa comprar a música”, e eu falei para o produtor “Eu preciso de um microfone, eu preciso de três follows grandes e acesso a tudo de luz”, aí eu corri lá e comecei a reorganizar, a tentar lembrar, fazia um tempo que eu não fazia Ne me quitte pas, aí eu tentei reorganizar o número ali, mas na pressão você faz muito rápido, como na improvisação. E eu fiquei 20 minutos ali, criando, recriando os galhos, né? Ne me quitte pas, ele é muito interessante, um palco gigantesco, eu com o microfone falando, dirigindo, foi muito legal… E aí depois de 20 minutos, quando eu estava quase pronto, o esboço do que seria o Ne me quitte pas, o diretor Dominic Champagne passou com uma equipe e ele parou e falou “O que que é isso?”, É um número do Claudio Carneiro, Ne me quitte pas“, “Eu achei incrível, é muito engraçado, e a gente precisa exatamente disso…”


– Uau…


– “Para terminar o número, colocar o outro”, resolvia um grande problema dele… Que é a função do palhaço…


– Sim…


– Fazer uma cena enquanto eles trocam o cenário, a função clássica do palhaço, e aí ele falou “Está dentro! Está dentro! A gente vai botar na segunda parte do show, vai ser o segundo número e fechou”, aí então antes, no primeiro dia não teve, mas no segundo, na grande première para a imprensa…


– Já funcionou?


– Teve o Ne me quitte pas, e explodiu…


– Legal!


– Explodiu!


– Que era uma dúvida, né? Eu imagino! Porque esse número que você já tinha feito no Brasil, mas para quantas pessoas aqui? Para público de…


– Ah, festival… Por exemplo, de brincadeiras, do riso com o Luis Carlos


– Mas nunca para três mil pessoas?


– Não. Nunca para três mil pessoas!


– E você tinha certeza que ia dar certo, ou você estava um pouco… Estava botando fé ou estava inseguro?


– Sim! Sim! Eu queria… Eu estava curioso de saber como ia ser…


– Sim!


– E foi impressionante, porque começa no escuro e acende um foco de luz, só eu, você ouve aquele burburio de três mil pessoas, “Caralho, eu tô aqui vivendo meu…”, e eu lembrei de uma coisa, tinha uma tia, isso para quem acreditava, acredita enfim… Mas as mulheres da família do meu pai, elas tem uma coisa meio mediúnica, e eu tinha uma tia que era famosa… Uma vez o Renato Aragão ia na casa dela, jogador de futebol… Tia da minha mãe… Tia do meu pai, e eu fui com 16, na casa dela, e ela me falou várias coisas, e ela falou… Ela fecha o olho assim, uma veia, meio preta veia assim, uma pessoa incrível, e ela “Claudio Carneiro, meu filho, isso vai acontecer”, não sei o que lá… E ela falou “Eu vejo você num palco”, e ela foi falando e eu fui visualizando, e está escuro, e tem muita gente em volta, tipo, ela descreveu um picadeiro…


– Uau…


– E aí um dia, não nesse primeiro dia, mas um dia eu estava assim, no escuro, é muito íntimo, né? Eu estava tocando poucos dias, ou semanas depois da estreia, e eu falei “É isso, foi isso que ela me falou há 16 anos, ela descreveu”, eu nem sabia que eu ia ser palhaço, eu gostava de teatro..


– Que legal!


– É, gostava de tudo. Gostava de palhaço, lógico, mas ela descreveu aquilo, e eu falei “Nossa, eu estou me encontrando, o eu de 16 anos, que visualizou isso”, não sei se eu me programei para o que ela falou, ou se ela realmente adivinhou…


– Aí o seu número entrou no show, foi um sucesso já na estreia, foi um golaço.


– Sim, sim…


– E aí você apresentou esse número lá, quanto tempo, mais ou menos?


– 3 anos!


– 3 anos apresentando! Depois de 3 anos você foi fazer, saiu de lá…


– Saiu o Dragone, me convidou…


– E aí o que eles fizeram com o número?


– Aí eu logo no começo, falei assim “É o seguinte”, quando eu apresentei o número eles gostaram, “OK, amanhã vai estar no espetáculo”, eu falei “OK, mas eu quero um contrato antes de eu entrar em cena com o meu número, que assim que eu saio, o meu número sai comigo…”


– Legal!


– O meu número é meu, porque os palhaços sabem muito disso, mas a gente trabalha com criação, o que é nosso é nosso, o que é meu é meu…


– É porque é o valor da criação, as pessoas as vezes não entendem, mas essa é a criação, e aí quando saiu…


– Aí eu fiz eles assinarem, e aí criou uma, um esquema de direito autoral…


– Uau!


– E aí depois, quando eu saí, eles vieram me fazer uma oferta, e eu falei “Tá, então agora eu quero em cada show que tiver, você vai ganhar tal preço”, e eu achei legal, mas não me preocupei muito, não assinei, nunca pedi, e eu lembro que depois de muito tempo eu falei “Ah, você tem que me pagar, um tempão de direitos autorais”, e ele “Ah é, a gente tem isso para pagar, né?”, “Não, eu não quero isso não, eu quero esse tanto”, “Ah Claudio, não sei”, aí eu falei “É o seguinte”, isso foi forte, eu lembro… “Eu te dou até sexta feira que vem, eu te dou uma semana para vocês decidirem, ou vocês me pagam exatamente o que eu quero por espetáculo, por direito autoral, ou nesse mesmo dia vocês são obrigados a tirar o número”, dei uma semana… Joguei forte… Joguei forte!


– E aí?


– Eu poderia ter me fodido “Ah, quer saber? Vamos tirar”, mas o número funcionava, é um número fácil que funcionava… E aí eles me ligaram na ultima hora, tipo meia noite da sexta feria, eles me mandaram e-mail assim, sofrendo assim, “OK Claudio, parabéns, você conseguiu o que você queria”, aí me pagaram uma bolada que eles me deviam, e aí ficaram me pagando…


– E aí você ganha royalties desse número, até hoje?


– Do Varekai!


– Mas ele virou um rendimento para você durante um bom tempo… Sensacional!


– É muito cara a droga, filho, mulher… Então, enfim… Não, não é nada demais, né? É direito autoral. Mas eu achei legal que tinha esse respeito assim, John que me cantou essa bola, um palhaço genial assim, do Cirque du Soleil, ele falou “Claudio, cuidado com os teus números. São teus!”


– O que que você odeia?


– Você, eu acho!


– Fora eu…


– Vai fala de novo, vai…


– Assim que te irrita, assim… Que coisa que te…


– GENTE CHATA! ODEIO GENTE CHATA! ODEIO GENTE MAL HUMORADA!


– Mal humorada de…


– Não tolero! Não tolero!


– Sério?


– Nossa, eu quero matar… Eu quero sair… Não tolero, mas com uma pré disposição… A gente é bobo, né?


– Sei, porque a gente fica muito aberto…


– Gente que não quer trepar comigo eu não tolero!


(Música)


– O Claudio, eu queria falar com você sobre criatividade. Que é um assunto que eu falo muito, acabei virando palestrante de criatividade, porque eu descobri que eu trabalho com isso no fundo, né? O que que, como é que é seu processo criativo, você tem algum tipo de regra, de ordenzinha? Os seus números são criados aleatoriamente? Como é que você enxerga essa coisa, o que que é ser criativo? Como é que você vê isso?


– É caótico! O meu processo é caótico! E vem junto com uma ansiedade que eu tenho desde infância… Eu tenho uma ansiedade que eu não durmo bem, eu durmo em média 4, 5 horas por dia…


– Por dia? Por noite, né?


– Por noite! E então, normalmente quando eu estou na fase criativa, eu durmo menos, eu acordo 3 da manhã… Eu preciso ter sempre, aliás, para quem quer criar, precisa sempre ter um caderno aberto, sempre tem que ter uma caneta na mão, um gravador o tempo inteiro, não pode… É uma coisa séria, enfim…


– Legal! Legal! É uma dica boa isso, porque é… Os comediantes em geral, tem muito esse caderninho, eu acho que até o celular pode ser substituído…


– É…


– Mas assim, um lugar para anotar as ideias quando elas acontecem, porque depois vai embora…


– E o truque meu, quando eu estou buscando… É que nem um músculo, se você ficou muito tempo sem criar, amortece. Agora, você volta a criar, você se força, funciona.


– Legal!


– Para mim funciona isso, também! Eu sempre deixo cadernos abertos na minha casa, e eu escrevo, três pontinhos, ou eu escrevo “GRANDE IDEIA”, “AMAZING IDEIA”, eu escrevo uma coisa assim, tipo como se eu já tivesse tido a ideia, coloco (…) e aí eu saio andando, eu ando, ando…


– Anda sozinho, tipo assim?


– Sim, mas em cidades grandes, é do caralho! Você observa as coisas, vem de várias maneiras, mas andar para mim, ajuda muito, coisa física assim…


– Legal! Putz… Isso é muito legal… Porque parece detalhe, mas eu falo isso de criatividade, porque as pessoas tendem a ficar muito paradas, sentadas “Ai, precisamos fazer uma reunião”, e fica todo mundo sentado, e esquece que a criação, ela meio que é do todo, né? Do corpo todo, você fala de andar, parece um detalhe, mas não… Você está entrando no corpo, conectando, olhando, abrindo, né?


– Sim! E tem uma coisa, você tem sempre que… Eu acho que é meio que um segredinho que eu aprendi, você tem que ir com os dois pés no peito… Você pode até criar um número legal, mas você tem que tomar uma atitude quando você está criando… Não, você tem criar uma coisa que é num nível 100 vezes maior do que está rolando no geral, você vai para, você vai com tudo… E aí se não for 100 vezes melhor, vai ser pelo menos 30 vezes melhor…


– Sim!


– E uma coisa, o Fernando Viana me ensinou quando eu era moleque, moleque que eu digo 19… 19, não sei… Que é incrível. Incrível! É um segredo caro assim… Toda vez que você vai criar alguma coisa, você imagina você como espectador de você mesmo, você pagaria para ver aquilo? Você sentaria ali, ia sentir tesão e ia rir pra caralho? Ia ter, sabe… Então esse é um grande segredo. Esse é um segredo caro. Legal e funciona!


– Legal! Você imagina…


– Por isso que eu gosto de ir em teatro quando eu vou criar, eu gosto de me visualizar, de sentar na plateia e olhar para o palco vazia e visualizar… Eu adoro! Eu adoro criar merda e deixar a cabeça ser caótica, deixar a cabeça… Você sabe muito bem disso, que no improviso…


– Sim!


– Tudo vira tudo!


– Isso é muito legal, porque a gente fala exatamente isso no improviso, e também fala de criatividade… Que é, você falou… Deixa vir! Deixa vir! Deixa vir! Tirar o filtro! Deixa vir! Deixa vir! Deixa vir! Porque depois vai ter a segunda parte, obviamente, que é o momento de refinar e tal, mas esse primeiro momento, deixa vir, deixa vir… É muito legal!


– Isso foi muito legal no Cirque du Soleil, você aprender sobre as grandes direções, reuniões com o Dragone, o Dragone convidava muitos palhaços, ele gostava muito da gente, ele convidava para a case dele, para a limusine dele, e o tal do brainstorm, você começa a entender, sentar… Aqui com o Rafinha, a gente também sentava e “Vamos criar números”, e se você senta com um amigo, você se propõe, você vai puxar, tem uma coisa de conexão mesmo assim, com o universo. Muita gente acha que nós criadores, não é que são nossas ideias, a gente é só uma linha, a gente é só, como é que se fala, fio terra? Fio terra? Você gosta de fio terra? Ah, o fio terra que saudades cara! Mas enfim, a gente é uma antena, em que as ideias estão… Tanto é que as vezes você tem uma ideia do que você faz, depois fica sabendo que algum palhaço fez…


– Já fez! É… Eu já tive isso!


– Então se você tem alguma ideia que você acha “eu vou ter uma intuição”, segue a tua intuição, porque assim, senão você vai dançar filho…


– O meu primeiro espetáculo, em que eu fiz na França, eu fui fazer um festival, era o Festival de Mobilé e os, festival de móveis, de arquitetura… Aí eu fiquei pensando “Putz, o que eu posso fazer? Já sei… Eu vou fazer um número e vou pegar as pessoas para fazerem os objetos, e eu chamei Mi casa, su casa“, as pessoas entravam na cena e faziam o chuveiro, a privada, o ultimo, o mancebo, a pia… E eu fiquei fazendo, fazendo… Quando eu vim aqui, ao Brasil, eu fiz ele também, e algum dia um cara falou “Ballas, eu vi um cara fazendo seu número”, e eu falei “Meu, não acredito”, eu fiquei criando e fui descobrindo, aí eu descobri que o número que eu fazia, não só esse cara fazia, como era meio como um clássico do circo. O Álvaro tem um número muito parecido. Aí você fala, “Tá”, porque era a criação, né? Agora eu quero voltar numa coisa que você falou…


– Mas eu quero voltar antes numa coisa, que você falou!


– O que você está anotando na mão?


– Nada! Em caso eu tenha ideias, eu sei que eu vou esquecer, então eu escrevo…


– Olha isso! Olha isso que precioso! Ele parou a entrevista, não parou, né? Ele foi escrever uma ideia na mão. Isso é muito legal, né?


– Mas eventualmente a minha mão vira um mapa, quando eu não tenho caderno, eu fico com a mão assim… As pessoas acham “Olha aquele cheirado ali, aquele craqueiro…”


– Ele está cheio de coisas na mão…


– Mas eu só preciso lembrar uma coisa, rapidinho…


– Manda!


– Isso é… Eu tinha 14 anos de idade, fazendo mecânica de autos no Senai, eu não sei se o… Enfim, tinha uma cortininha dessas, como é que chama? Essas que abrem assim?


– Cortininha  que abre assim!


– Essas que tem várias… Que tem várias…


– Persiana!


– Isso, persiana! E eu lembro que era uma aula de teoria, era uma muito legal, mas essa aula estava chata. E eu estava sentado na minha carteira, a minha mesa era perto da persiana e as mesas eram diferentes, os grupos estão reunidos assim, como uma sala de trabalho. E eu sempre fazia uma palhaçadinha, com 14 anos de idade, não havia internet, não havia porra nenhuma, e eu peguei e percebi que algumas pessoas estavam me olhando por alguma razão, alguns alunos, que eu sempre estava fazendo uma piadinha, e eu peguei e enfiei a minha mão por detrás da persiana. E eu sabia que as pessoas estavam me olhando, então nisso eu continuei escrevendo minha lição, e eu sabia que tinham duas ou três pessoas me olhando e começaram a rir, e eu comecei a fazer uma… Me olhavam e eu tirava a mão…


– Sei…


– Eu criei… “Criei”, toda essa cena, a cena do enforcado e aí riram muito, e eu fiz várias vezes, eu tinha 14 anos, nunca tinha visto uma cena assim, depois eu fui estudar palhaço, que eu vi que era um clássico…


– Sei, sei…


– O Chaplin fazia, essa coisa de botar a mão no casaco, eu criei, achando que tinha criado, mas não era, estava conectado com o universo do palhaço, assim…


– Muito legal, porque a gente viu na prática a ideia, a gente teve uma ideia no meio da loucura, e aí anotou essa ideia, senão essa ideia vai se perder… Então é um detalhe, mas é um detalhe da criação, porque a criação TAMBÉM é trabalho, esforço, labuta, experimentar… Eu tenho uma pergunta para você, que eu vi muitos dos seus números, e eu vi muitas vezes os seus números crus. E depois o próprio Ne me quitte pas, que era um número que você nem usava Ne me quitte pas…


– Você já deve ter feito comigo, nem sei… Você já fez a música?


– A música, no Sarau do Charles, que tinha uma coisa que era…


– Porque o palhaço engraçado mesmo, o Augusto, é o cara que está segurando a luz…


– Que está na luz, exato! E você não usava o nome Ne me quitte pas, você usava uma música…


– Itamar Assunção, os Mutantes, é…


– Os Mutantes. Você usava uma música dos MutantesDizem que sou louco…


– É!


– Eu vi muitas vezes os seus números, por exemplo esse Ne me quitte pas, eu vi ele cru, no Sarau um dia eu operei a luz, e de repente eu vi no Cirque du Soleil, e eu falei “Noooosssaaaa“, então eu queria saber, quando é que você acha que seu número está pronto, não hoje que você está no Soleil, mas lá atrás, como é que foi na sua história. E de você, experimenta também muito rapidamente, experimentava muito rapidamente…


– Sei…


– Então como que era “Puxa, agora está mais ou menos pronto, eu vou provar!”


– Eu acho que eu sou bom em criar a coisa grossa, aí eu prefiro afinar com o tempo… Quando eu crio é tipo um excitamento de transa assim…


– Sei…


– Eu preciso botar logo, sabe? Eu não tenho paciência! Eu vou e boto, e a melhor coisa que tem pra fazer é, para palhaço, não demora muito. Faz, vai pra rua. O Hugo Possolo falava isso, não fica fazendo no espelho, vai para a praça, tenta fazer o povo rir, eu tenho o tempo todo, se tiver chance… Então eu vou e boto, depois…


– Vai refinando!


– Vai refinando!


– Você pensava, tinha uma ideia do número e aí apresentava ele…


– É, quando eu tenho intuição do número é muito forte.


– Sei…


– Quando eu tenho intuição geralmente funciona assim, não estou dizendo que eu sou, mas quando vem uma intuição, vem uma ideia, já me fez rir… Eu falo “Ai caramba, eu preciso ir no teatro amanhã para fazer”…


– Mas você falou uma coisa que é muito legal, porque eu estou trazendo para a criatividade que não serve só para palhaço, que é muito legal, eles falam até no mundo da start up, MVP, né? Que é um primeiro protótipo para você experimentar e aí clher feedback, e aí fazer um novo, colher feedback, fazer um novo… E aí vira uma coisa!


– Sim!


– Você está falando exatamente isso, que é o que você faz, a gente faz, você que é criador de número específico, e é muito legal! Você tinha ideia, pensava e tal, e não ficava meses trabalhando, planejando, não… Você ia lá e botava e a medida que o público, eu vi isso na prática, e é muito legal! A medida que você ouvia, “pô, o público riu nessa hora”, “olha riu nesse momento, nem achei que ele ia rir”, “putz”, “ih, esse não funcionou”, “não está entendendo essa piada”, aí você vai e faz de novo até que ele vira uma coisa que aí você pode chamar de produto, digamos assim, né?


– Sim!


– Isso é muito legal para o processo criativo, porque isso vale para qualquer coisa, porque no mundo de hoje a cada vez mais as pessoas estão entendendo que tem planejar menos e ir logo para coisa da…


– E está ficando mais acelerado…


– Isso! Mais rápido!


– Ninguém tem tempo a perder!


– Exato!


(Música)


Muito bem, muito bem, muito bem, chegamos ao final de mais um episódio (AAAHHH) mas na segunda feira que vem tem mais (EEEHHH)


E se você ainda não entrou no grupo que a gente tem no Facebook, chamado BallasCast, JÁ ESTÁ MAIS DO QUE NA HORA!


E vamos agora ao nosso momento merchand…


“Ballas, eu sou de fora de São Paulo e eu queria muito aprender o improviso ou o palhaço, como é que eu faço, hein?”


É fácil. No início do ano tem os cursos de férias da Casa do Humor, é só você entrar no site e ver cursos de palhaços, improviso e stand up… casadohumor.com.br


É isso aí!


Thank you for you attention


Bghtuirelsmnf][nvgjiroewsçx]


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See you next Monday!


Bye bye!


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